* Roselaine da Cas Kern
INTRODUÇÃO
O presente artigo justifica-se tendo em vista a preocupação e a necessidade de envolver aspectos lúdicos na prática pedagógica do professor e que está emerge principalmente sobre como conduzir melhor o processo ensino aprendizagem, para que os alunos se beneficiem de fato e de direito de uma boa educação, de um bom desenvolvimento motor, cognitivo, afetivo e também social. A escola deve ser um ambiente criado para desenvolver as habilidades e a capacidades da criança. O brincar permite a elas a construção do conhecimento de forma espontânea, lúdica e prazerosa.
Os principais objetivos desse estudo são: ressaltar a importância do lúdico e das brincadeiras para a criança enquanto ferramenta para o professor no processo ensino/aprendizagem, identificando os benefícios do brincar na construção do conhecimento de forma espontânea e prazerosa e com isso fazer uso do poder de transformação que o brincar exerce no processo educativo e formativo da criança, nos aspectos afetivos, motor, social e cognitivo.
Sendo assim faz-se necessário realizar pesquisas e estudos a fim de elucidar a luz de fundamentos teóricos a importância do lúdico e das brincadeiras para o aprendizado e desenvolvimento das crianças e ainda orientar o corpo docente que é possível ensinar e aprender por intermédio da corporeidade, da espontaneidade e da ludicidade, e para isso utilizou-se o método de pesquisa bibliográfico com leituras, estudos, análises, apontamentos e reflexões, tendo como base teórica grandes estudiosos da área, elucidando dúvidas e incertezas, com relação ao tema proposto.
A utilização do lúdico, dos jogos e brincadeiras na educação, para auxiliar na aprendizagem das crianças ainda é um desafio e uma incógnita para muitos educadores, pois a falta de preparo e a falsa crença de que criança em faixa etária escolar precisa escrever e encher o caderno para aprender dificulta seu trabalho e em muitos casos retarda o aprendizado das crianças.
A ludicidade e o brincar não devem ser vistos apenas para preencher o tempo de aula, o que torna a proposta lúdico-educativa para o professor um desafio constante, onde além de selecionar, preparar, planejar e aplicar os jogos, precisa também participar, no transcorrer do jogo, se necessário jogando, brincando com as crianças, sempre atento ao desenrolar do jogo. O papel do professor é o de gerador de situações estimuladoras e eficazes para a aprendizagem onde os usos dos jogos, do lúdico e das brincadeiras tornam-se uma alternativa mais divertida e prazerosa ao ensino dos conteúdos escolares, sendo mais atraente e significativo aos alunos.
A revisão de literatura abordara a importância, a construção do conhecimento e a transformação que o lúdico, os jogos e o brincar proporcionam as crianças e consequentemente ao processo ensino aprendizagem. Teremos como principais fontes bibliográficas estudiosos como: Brasil (2012), Kishimoto (1993), Santos (1997), Haetinger & Haetinger (2009), Rosado (2005), ECA (1990), Macedo e Passos (2005) dentre outros. Para melhor compreensão do assunto trabalharemos em três eixos centrais: O lúdico, os jogos e as brincadeiras; A criança em desenvolvimento e o ambiente escolar: Do imaginário ao real e por último O papel do professor e o uso do lúdico e das brincadeiras como fonte do saber.
O brincar, o lúdico, os jogos e os brinquedos: Um caminho por se fazer
O brincar, o lúdico, os jogos e os brinquedos são fundamentais para o crescimento, desenvolvimento e amadurecimento da criança em seus aspectos afetivo, motor, cognitivo e social, favorecendo portanto, o processo ensino/aprendizagem de forma dinâmica, lúdica, criativa e prazerosa desde os primeiros anos de vida, principalmente na vida escolar, início da formação cidadã.
Dar vez e voz a essas possibilidades configurando-as em realidade efetiva é um dos compromissos da formação lúdica. Esse brincar, esse divertimento, o entendimento transcende a atividade lúdica em si, compreende uma postura de vida que se traduz na espontaneidade e na própria corporeidade como ressalta Santin, (1990, p.27) referindo-se ao brincar afirmando que:
O brincar não pode ser identificado como determinadas atividades, mas sim entendidas como uma atitude, uma mentalidade ou uma intencionalidade […] 0 brinquedo caracteriza-se ainda pela presença do outro. Brincar é estar junto com o outro. E sentir o gesto, o olhar, o calor do companheiro. 0 brinquedo aproxima as pessoas, as torna amigas porque brincar significa sentir-se feliz. 0 brinquedo não é confronto e nem conflito. E só observarmos os animaizinhos quando brincam. Tudo é fazer de conta. Ninguém morde ninguém. Tudo é simulação. Brincar torna-se sinônimo de paz, de harmonia e de alegria. (SANTIN, 1990 p.27)
O brincar não só faz parte da vida da criança, mas é a própria criança. Esse brincar implica em mudanças, em novas descobertas, novas formas de se relacionar, expressar e se comunicar com o mundo que o rodeia.
O lúdico, os jogos e os brinquedos fazem parte do mundo da criança desde a infância onde o brincar está presente na humanidade, nas diferentes idades, épocas e nas diferentes culturas, sendo então um meio para a prática educativa e, por conseguinte para o convívio em sociedade, onde esta criança adquira dentro do seu contexto, do seu meio natural faz descobertas, constrói conceitos e transforma seu modo de sentir, pensar e agir, haja vista que os jogos, o brinquedo e as brincadeiras se tornam peças fundamentais e de suma importância para sua formação, onde por intermédio das vivências práticas, a criança constrói e molda seu próprio mundo. Os jogos, o brinquedo e as brincadeiras fazem do processo ensino/aprendizagem algo divertido, alegre, espontâneo e prazeroso, onde a criança aprende brincando e brincando ela aprende. Para Horn (2004, p. 72):
Na brincadeira, além de a criança protagonizar as vivências que acontecem em cenas familiares e os sentimentos advindos delas, ela viabiliza a possibilidade de criar regras e enredos que resultam em determinantes importantes na construção das condutas sociais, exercidas na vida em sociedade, as quais são explicitadas no desempenho de papeis que as crianças assumem ao brincar. (HORN, 2004 p. 72).
Pelo exposto acima configura-se o ato de brincar em um ato de aprender, a criança aprende com facilidade, porque brinca de maneira alegre, espontânea e natural, sem se dar conta que essa ou aquela brincadeira desencadeará futuramente e servirá como suporte para o aprendizado das crianças, para sua vivência em grupo, na sociedade. Toda criança brinca e encena papeis advindos da família, através dos pais, dos amigos, dos coleguinhas da escola, da professora, enfim, papeis existentes no cotidiano da criança e tais papeis retratam a vida como ela é, porém do jeito simples, engraçado, divertido e encantador que a criança agrega nele.
O brincar, o lúdico, os jogos e os brinquedos mantêm-se e se difundem entre gerações e mostram os valores e significados adquiridos na família e também na escola, ou seja, a cultura trazida por meio dos ensinamentos escolares e os aprendidos também fora da escola, uma vez que aprendemos a todo instante em todos os lugares. Para Dhome, (2003 p. 87) “o jogo é um grande campo onde as crianças vivenciam de forma livre e autônoma o relacionamento social”, o que vem a contribuir no desenvolvimento de atitudes cooperativas através das interações com os pares e também a aprendizagem dos mesmos. Segundo Kishimoto (1993, p.7):
Do ponto de vista histórico, a análise do jogo é feita a partir da imagem da criança, presente no cotidiano de uma determinada época. O lugar que a criança ocupa num contexto social específico, a educação a que está submetida e o conjunto de relações sociais que mantém com personagens do seu mundo, tudo isso permite compreender melhor o cotidiano infantil- é nesse cotidiano que se forma a imagem da criança e do seu brincar. (KISHIMOTO, 1993 p. 7)
Segundo Kishimoto o entendimento do jogo é adquirido pelo comportamento, pela expressão adotada pela criança em determinados espaços e épocas. Isso tudo vai depender de sua história, sua vivência e principalmente do seu contexto onde ela se insere, pois será este ambiente o responsável pelo brincar, pela ludicidade, pelas brincadeiras, pelos brinquedos, pela imagem, desenvolvimento e crescimento da criança. Para Kishimoto (1997, p.18) “[…] O brinquedo estimula a representação, a expressão de imagens que evocam aspectos da realidade”. A tendência é que as crianças imitam as cenas, as representações vivenciadas no ambiente familiar e social e delas tiram proveitos futuramente, embora sem se dar conta disso e todas essas manifestações auxiliam na transformação social da criança.
Brincar é criar, imaginar, interagir com o outro. Na brincadeira, meninas e meninos brincam juntos, não há distinção de gênero, raça, cor, sexo ou outro fator que impeça as crianças de brincarem e se divertirem juntas, não há preconceitos nem exclusão, pelo contrário, todos são iguais; não só desenvolve o lado motor, cognitivo, afetivo e social da criança, como possibilita novas descobertas de ser e estar no mundo.
Brincar é um direito das crianças e um meio rico de conhecimento, troca e conquistas através das atividades lúdicas, dos jogos e dos brinquedos elas exploram o seu mundo interior, sua imaginação e criatividade e fazem desses momentos também um ato pedagógico, isto é, um momento talvez singular de aprendizagens e apropriações do conhecimento.
Seguindo esse raciocínio Craidy e Kaercher (2001 p.105) contribuem:
O brincar proporciona a troca de pontos de vistas diferentes, ajuda a perceber como os outros o veem, auxilia a criação de interesses comuns, uma razão para se possa interagir com o outro. Ele tem em cada momento da vida da criança, uma função, um significado diferente e especial para quem dele participa. Aos poucos, os jogos e brincadeiras vão possibilitando às crianças a experiência de buscar coerência e lógica nas suas ações governando a si e ao outro. Elas passam a pensar sobre suas ações nas brincadeiras, sobre o que falam e sentem, não só para que os outros possam compreende-las, mas também para que continuem participando das brincadeiras. (CRAIDY E KAERCHER p. 105)
Com o passar do tempo, as brincadeiras, os jogos, os brinquedos vão tomando sentido e passam a ser vistos dentro de um contexto significativo, começam a fazer relações entre o imaginário e o real, e assim vão dando novos sentidos ao seu brincar, criar e inventar, aproximando-se cada vez mais das situações reais do seu cotidiano. Abordar o brincar numa tentativa de refletir sobre os fundamentos de nossa história cultural e de expandir a compreensão da sociedade requer abandonar a hipocrisia racionalista que vincula a razão à construção do conhecimento do mundo em que vivemos. Nessa linha de pensamento temos a contribuição de Marcellino (2003, p. 23-24) que enfatiza:
Reconhecer o lúdico é reconhecer a especificidade da infância: permitir que as crianças sejam crianças e vivam como crianças; é ocupar-se do presente, porque o futuro dele decorre; é esquecer o discurso que fala da criança e ouvir as crianças falarem por si mesmas; é redescobrir a linguagem dos nossos desejos e conferir-lhes o mesmo lugar que tem a linguagem da razão; é redescobrir a corporeidade ao invés de dicotomizar o homem em corpo e alma; é abrir portas e janelas e deixar que a inclinação vital penetre na escola, espane a poeira, apague as regras escrita na lousa e acorde as crianças desse sono letárgico no qual por tanto tempo deixaram de sonhar. (MARCELLINO, 2003, P. 23-24).
Constata-se a importância do lúdico, da liberdade, do envolvimento, do prazer, da corporeidade, da imaginação e do movimento como ser único resgatando as diferentes formas de expressão da cultura corporal seja através do brincar, do brinquedo, ou do jogo. Fica evidente na fala de Marcellino que a criança brinca e aprende sendo que a criança necessita libertar-se para o seu desenvolvimento de uma rede de interações configuradas na participação, na inclusão, no compartilhamento, na compreensão, no respeito e no pensamento sistemático.
Kishimoto (2002, p. 148) aponta para a importância que o brincar exerce na construção da linguagem, onde a criança necessita brincar no e com o mundo e a partir disso, passa também a falar com o mundo do mesmo modo em que brinca nele. (KISHIMOTO 2002). Esse Encantamento que o brincar proporciona as crianças, remete a ganhos culturais riquíssimos, haja vista que a criança sente prazer em brincar, portanto esse elemento é essencial dentro dos espaços escolares, pois é lá onde a criança passa boa parte de sua vida, e ela precisa sentir-se bem, segura, protegida e assim, usar toda a sua criatividade e imaginação para brincar e aprender. Em relação ao brinquedo Kishimoto (1997 p. 18) diz que “[…] O brinquedo estimula a representação, a expressão de imagens que evocam aspectos da realidade”.
Desse modo percebemos a vasta e ao mesmo tempo estreita relação ente o brincar, o lúdico, os jogos e as brincadeiras na vida das crianças e esses elementos se fazem necessários dentro das escolas, principalmente na Educação Infantil, primeira etapa da Educação Básica, por ser o alicerce, a base da caminhada escolar dos educandos.
A criança em desenvolvimento e o ambiente escolar: Do imaginário ao real.
De acordo com as visitas realizadas para construção do TCCI e de questionários realizados com professores da Escola Municipal de Ensino Fundamental Engenheiro Álvaro Leitão
Constata-se a importância do lúdico, da liberdade, do envolvimento, do prazer, da corporeidade, da imaginação, das brincadeiras e do movimento, resgatando as diferentes formas de expressão da cultura corporal e esportiva através do brinquedo, do jogo, do esporte como um todo e d De acordo Haetinger & Haetinger (2009, p. 51):
É fundamental a importância do brincar em ambientes escolares, pois este ato está sempre presente no desenvolvimento pleno dos indivíduos. A brincadeira simula, reproduz, vivencia e desseca os conteúdos de modo não formal e mais próximo do universo do aluno, independente de sua idade. E aqui defenderemos não a brincadeira pela brincadeira, mas o brincar criativo que possibilita o lúdico e o prazer, além de explorar a criatividade e a imaginação. (HAETINGER & HAETINGER 2009, p. 51).
Com base no exposto acima, mais uma vez percebe-se a ludicidade como um caminho seguro e consistente para o desenvolvimento da criança, nas diferentes idades, devendo estar presente também para além dos muros escolares.
Conforme Haetinger & Haetinger (2009, p.6):
O jogo tem fator mágico em sua relação com os alunos- eles estão sempre dispostos a jogar e brincar! E este fator é talvez um dos mais importantes dos jogos e o que promove a motivação, gerando maior participação e interação envolvendo os alunos e o conhecimento, proporcionando uma aprendizagem de qualidade, adaptada a cada individuo pelo processamento pessoal dessas atividades. No jogo as vivencias acontecem de forma coletiva (aquilo que conquistamos na relação com os outros colegas) e individual (por causa dos diferentes papeis vividos em cada brincadeira). (HAETINGER & HAETINGER 2009, p.6):
Todo esse contexto prova que no brincar, nos jogos construímos laços afetivos, construímos nossa história, fazemos nosso jogo, nos relacionamos, aprendemos questões também de valores, crescemos como sujeitos, aprendemos uns com os outros, trocamos ideias, trabalhamos cooperativamente, vivemos e aprendemos brincando. (grifo nosso).
Com isso o cultivo do movimento, da expressão e do brincar torna-se imprescindível na escola, pois é lá onde as crianças passam maior parte de seu tempo, é lá, assim como em suas casas, constroem sua identidade afetiva, social e também corporal.
Uma criança que não brinca, não interage é de certa forma uma criança “sem vida”, sem anseios e aspirações. Como se percebe o brincar, a parte lúdica e corpórea deve estar presente em todos os momentos, em todas as etapas da vida da criança e também na vida do adulto, haja vista que acredito que nunca envelhece quem sempre guarda uma criança dentro do coração e assim deve ser nossos dias, vivendo, crescendo e aprendendo, mas também permitindo a presença do brincar, da alegria e da expressão corporal em nossas vidas.
O próprio Estatuto da Criança e do Adolescente Lei nº 8.069 (1990 art. 4º) aponta para o desenvolvimento da criança em diferentes fases da vida, priorizando seu crescimento de forma sadia e harmoniosa ao afirmar que:
É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária. (ECA, 1990, art. 4º).
A ludicidade ganha sentido para a criança quando a prepara para vida. De forma livre a prazerosa e ainda quando proporciona reviver experiências, quando realiza atividades de faz de conta, quando brinca e fantasia seu brincar saciando seus desejos. Compreende-se que a escola necessita interiorizar o que é trabalhar com a vida das crianças.
O ato de brincar se traduz em momentos emancipatórios para crianças e adolescentes. Ainda conforme O Estatuto da Criança e do Adolescente (1990, art.16) traz que brincar praticar esportes e divertir-se constitui num direito da criança, compreendendo assim um direito a liberdade, a livre expressão para a criança em desenvolvimento. A brincadeira faz com que a criança vivencie novas experiências e com isso desenvolva sua autoestima, sua corporeidade.
Brincar, praticar esportes e se divertir são recursos necessários ao aprendizado e ao desenvolvimento físico, mental, social, psíquico e moral de crianças e adolescentes. No brincar, meninas e meninos melhoram suas habilidades motoras e amadurecem emocionalmente.
Segundo Brasil (2012, p. 07) é afirmativo que as brincadeiras influenciam o crescimento e desenvolvimento das crianças como vemos na passagem abaixo:
[…] As brincadeiras promovem situações em que as crianças aprendem conceitos, atitudes e desenvolvem habilidades diversas, integrando aspectos cognitivos, sociais e físicos. […] A brincadeira possibilita vários ganhos para o desenvolvimento e a aprendizagem de qualquer criança. (BRASIL, 2012 p. 07).
Isso vem ao encontro do exposto linhas acima quando afirmávamos da importância e necessidade dos aspectos lúdicos na vida criança. Conforme Macedo e Passos (2005):
O brincar é fundamental para o nosso desenvolvimento. É a principal atividade das crianças quando não estão dedicadas as suas necessidades de sobrevivência (repouso, alimentação, etc.). Todas as crianças brincam se não estão cansadas, doentes ou impedidas. Brincar é envolvente, interessante e informativo. Envolvente porque a criança em um contexto de interação em que suas atividades físicas e fantasiosas, bem como os objetivos que servem de projeção ou suporte delas, fazem parte de um mesmo continuo topológico. Interessante porque canaliza, orienta, organiza as energias da criança, dando-lhes forma de atividade ou ocupação. Informativo porque, nesse contexto ela pode aprender sobre características dos objetos, os conteúdos pensados ou imaginados. (MACEDO E PASSOS 2005, p.13, 14).
O processo de aprendizagem em que estão sujeitos crianças e adolescentes é contínuo e não depende apenas de fatores biológicos, mas das diferentes experiências obtidas em diferentes momentos, em diferentes ambientes. O uso dos jogos torna-se assim uma alternativa mais divertida e prazerosa ao ensino dos conteúdos escolares, sendo mais atraentes e significativas aos alunos.
Existem várias formas de manifestações da ludicidade, entre as quais, os jogos, as histórias, as danças, as canções e outras manifestações artísticas. Esse entendimento é reforçado por Macedo e Passos (2005, p. 20), “O lúdico torna-se simbólico e amplifica as possibilidades de assimilação do mundo. Dessa maneira, a criança pode pensar imaginar ou questionar”.
Segundo a “ECA” Estatuto da Criança e do Adolescente (1990, art. 71) diz que toda criança e adolescente tem direito a informação, cultura, lazer, esportes, diversões, espetáculos e produtos e serviços que respeitem sua condição peculiar de pessoa em desenvolvimento. E este direito é estabelecido, pois, as brincadeiras e jogos realizados principalmente no período da infância são fundamentais para a dinâmica de satisfação de curiosidades, para a superação de medos e para resolução de problemas.
Brincar é se comunicar com o mundo, muitas vezes incompreendido, prioritariamente, por crianças em seus primeiros anos de vida. A hora do brincar possibilita a relação em sociedade. Nela crianças e adolescentes tem a oportunidade de conviver com outras crianças e outros adolescentes, dentro de um processo de mutualidade e respeito as individualidades e suas diferenças.
Conforme Rosado (2005 p.41) é importante salientar que “[…] Brincar, praticar esportes e se divertir são recursos necessários ao aprendizado e ao desenvolvimento físico, social, psíquico e moral de crianças e adolescentes. É o primeiro contato com a cidadania. Brincar é uma forma de incitar a inclusão social, é uma ação que promove a interação e a integração entre indivíduos, mesmo que estejam presentes elementos de competitividade. Nesse momento o importante é aprender a respeitar a diversidade e evitar a ideia de segregação, seja ela qual for.
Para Santos (1997, p. 55-61) os jogos, o lúdico e as brincadeiras (principalmente as mais tradicionais) são aquelas de maior acesso por parte das crianças e também aqueles de fácil assimilação no contexto da criança e que foram transmitidos de geração em geração, portanto é um brinquedo que na maioria das vezes é confeccionado pela própria criança. De acordo com autora a criança apropria-se da cultura dos adultos levando-as a brincadeiras de faz-de-conta, imitando muitas vezes o comportamento de seus pais, de sua cultura e assim adquire noções de valores que aos poucos são incorporados as brincadeiras a forma lúdica de brincar e descobrir seu próprio meio.
Buscamos nas palavras de Macedo e Passos (2005, p. 14) a importância que o brincar acarreta na vida das crianças:
O brincar é sério, uma vez que supõe atenção e concentração. Atenção no sentido de que envolve muitos aspectos inter-relacionados, e concentração no sentido de requer um foco, mesmo que fugidio, para motivar as brincadeiras. O brincar supõe também disponibilidade, já que as coisas mais importantes da vida da criança – o espaço, o tempo, seu corpo, seus conhecimentos, suas relações com pessoas, objetos e atividades […] O jogar é um dos sucedâneos mais importantes do brincar. O jogar é o brincar em um contexto de regras e com um objetivo predefinido. (MACEDO E PASSOS, 2005 P.14).
É no brincar que tudo acontece e se realiza de acordo com a criatividade e imaginação das crianças. Conforme Brasil (2012, p. 08) “As brincadeiras e os jogos são situações bastante favoráveis de aprendizagem, pois além de promoverem a interação entre as crianças, contribuem para o desenvolvimento e o bem estar das crianças no ambiente escolar”. Mais uma vez vamos recorrer para Haetinger & Haetinger (2009):
Por meio dos jogos […] o aluno tem seu, mais espontâneo meio de expressão, usando a simulação […] Estimulamos uma reformulações de ideias (consciente ou inconsciente), possibilitando novas atitudes, estabelecendo uma relação entre o educando e os personagens. Também incentivamos o interesse pelo conhecimento de outras disciplinas, a coordenação da expressão do corpo, a expressão verbal e completa, e o binômio ensino-aprendizagem, dentro da escola e fora dela, junto a comunidade. (HAETINGER & HAETINGER, 2009 p 38).
Mais uma vez se percebe essa vasta relação entre o brincar e o desenvolvimento da criança e também desenvolvimento do processo educativo. Brasil (2012) aponta que “Os jogos, os brinquedos e as brincadeiras estão presentes em todas as sociedades na contemporaneidade. Inserem-se na vida das pessoas em diferentes fases de seu desenvolvimento”. Ainda conforme Borba (apud Brasil, 2012, p.09) “O brincar envolve, portanto complexos processos de articulação, entre o já dado e o novo, entre a experiência, a memória e a imaginação, entre a realidade e a fantasia”.
Para Silva (2009, p. 51) é relevante colocar a importância do corpo, sua relação e expressão como forma de inclusão, tudo num processo democrático, reconhecendo e valorizando a diversidade. Brincar é uma forma de incitar a inclusão social, é uma ação que promove a interação e a integração entre indivíduos, mesmo que estejam presentes elementos de competitividade. Portanto incluir é garantir uma educação de qualidade para todos os alunos. (SILVA, 2009). Para Silva o lúdico, os jogos e as brincadeiras caracterizam um ponto fundamental na inclusão, haja vista essas atividades proporcionam a igualdade entre todos os membros participantes e coloca esses aspectos como uma ferramenta capaz de gerar o movimento e o desenvolvimento das crianças. Através do brincar, a criança expressa suas fantasias, seus sentimentos, suas ansiedades e suas experiências.
O simbolismo possibilita as crianças transferir não apenas interesses, mas também fantasias a outros objetos além de pessoas. O brinquedo é a atividade da criança, onde ele cria na criança uma nova forma de desejo. Ensina-a desejar relacionando seus desejos a um “eu” fictício ao seu papel no jogo e suas regras. Através do brinquedo a criança adquiri o que futuramente tornar-se-á seu nível básico de ação real e moralidade. (Vygotsky, 1987).
Para Rosado (2005 p. 43) o brincar deve ser compreendido por todos, enquanto meio indispensável para crianças e adolescentes. Dessa forma tanto a família como a sociedade devem entender que o momento de brincar é indispensável para a vida desses sujeitos, uma vez que no mundo imaginário, no faz-de-conta as crianças crescem e amadurecem, auxiliando em seu crescimento, ajudando a superar obstáculos que estão por vir, formando indivíduos preparados para a vida e para o convívio em sociedade. (ROSADO, 2005).
Vejamos as ideias de Macedo e Passos (2005, p. 17) que trás átona um pouco da escola, do espaço lúdico dizendo:
Escola obrigatória que não é lúdica não segura os alunos, pois eles não sabem nem têm recursos cognitivos para, em sua perspectiva, pensar na escola como algo que será bom em um futuro remoto […] Em jogos e brincadeiras, as tarefas ou atividades não são meios para outros fins, são fins em si mesmos. Na perspectiva das crianças, não se joga ou brinca para ficar mais inteligente […] joga-se e brinca-se porque isso é divertido, desafiador […]. (PASSOS, 2005 p. 17).
Com isso reencontrar o lúdico, o brincar é entender o seu valor revolucionário, torna-se imperativo se desejando preservar os valores humanos no homem.
Abordar o brincar numa tentativa de refletir sobre os fundamentos de nossa história cultural e de expandir a compreensão da sociedade requer abandonar a hipocrisia racionalista que vincula a razão à construção do conhecimento do mundo em que vivemos. Assim poderemos resgatar a criatividade ousando o novo, acordar do estado vegetativo, improdutivo e criativo do corpo e da mente tornando-se seres humanos com sonhos e visões acreditando em si, em suas ideias e principalmente em nossa potencialidade.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Com base nesse estudo, a luz de uma considerável fundamentação teórica, evidenciou-se a importância do lúdico e dos jogos, enquanto meios riquíssimos de aprendizagem, considerando que esses são aspectos fundamentais e essenciais na vida da criança, apontando o brincar como fonte de crescimento, desenvolvimento e amadurecimento em seus aspectos cognitivos, afetivo, social e motor.
Constata-se ainda em relação ao presente artigo que o professor é peça fundamental nesse processo, devendo atuar como mediador, alicerçado em uma práxis educacional coerente, possibilitando o “desabrochar” dos “pequenos”, para assim favorecer e melhor auxiliar no seu desenvolvimento. A criança ao brincar, descobre a si, ao outro e ao mundo ao seu redor, viabilizando uma interação do real ao imaginário, do faz de conta e o natural. É dessa forma que ela brinca e aprende e aprende porque brinca e juntos o brincar e o aprender ganham espaços de destaque na vida da criança não apenas como entretenimento, mas como mecanismo de autodescoberta, de reciprocidade, em fim um momento singular de aprendizado e conhecimento, que talvez não tivessem se não por intermédio da ludicidade, dos jogos e das brincadeiras.
Brincar, se divertir, recrear e praticar esportes são um direito que a criança tem, é uma forma de inseri-la em um contexto social plausível, priorizando uma vida saudável, alegre, divertida, respeitando e acatando também seus anseios, expectativas e fantasias de modo que esses fatores elevem sua autoestima, contribuindo para uma construção ou reconstrução da realidade onde se insere a criança, e assim as conduzam para um patamar mais elevado também do conhecimento das crianças.
Conclui-se que o brincar, o lúdico, os jogos, em fim toda essa gana corporal e simbólica devem estar presentes na vida escolar das crianças e também fora dela e que essas oportunidades dependerão em grande parte do professor que muitas vezes irá introduzir todo esse repertório do brincar na vida das crianças, dependerá de suas aulas, do seu fazer e agir pedagógico e da sua força de vontade de despertar na criança o hábito, o gosto e o prazer pelas mais variadas e diversificadas formas de pensar, sentir e agir dentro do mundo mágico do brincar, contribuindo assim para seu crescimento e desenvolvimento de forma saudável e prazerosa.
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