Por Cíntia Noronha da Silva
1 INTRODUÇÃO
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) tem ganhado crescente destaque nas áreas da saúde e ada educação, especialmente em razão do aumento dos diagnósticos e do fortalecimento das políticas de inclusão escolar. O TEA trata-se de uma condição do neurodesenvolvimento marcada por grande complexidade e heterogeneidade, manifestando-se de maneira singular em cada indivíduo, com prejuízos na comunicação, na interação social e pela presença de padrões restritos e repetitivos de comportamento. A inexistência de um marcador biológico específico faz com que o diagnostico do TEA seja essencialmente clínico, fundamentado na observação do comportamento e na analise do histórico de desenvolvimento em diferentes contextos, o que exige um olhar atento, sensível e fundamentado teoricamente pelos profissionais envolvidos.
No contexto educacional, a escola ocupa papel central na identificação precoce dos sinais do autismo, uma vez que é nesse espaço que a criança vivencia intensas interações sociais, situações comunicativas diversas e rotinas que podem evidenciar características do espectro. Nesse sentido, o professor da sala de aula regular assume posição estratégica, pois, ao acompanhar cotidianamente o desenvolvimento dos alunos, torna-se, muitas vezes, o primeiro a perceber comportamentos que se distanciam dos marcos do desenvolvimento infantil. Assim, a observação docente configura-se como uma ferramenta tanto para o encaminhamento adequado aos serviços especializados quanto para a construção de práticas pedagógicas inclusivas que respeitem as singularidades dos alunos.
Diante desse cenário, emerge a seguinte questão problema: de que forma a observação docente no contexto escolar pode contribuir para a identificação dos sinais do Transtorno do Espectro autista e para a efetivação de práticas pedagógicas inclusivas?
A partir dessa problematização, o presente trabalho tem como objetivo principal compreender a complexidade do diagnóstico do Transtorno do Espectro Autista e analisar o papel da observação docente no contexto escolar como elemento essencial para identificação precoce de sinais e para a promoção da inclusão educacional. De forma especifica, busca-se compreender o TEA enquanto um transtorno de manifestações diversas, analisar a importância da observação sistemática dos comportamentos no ambiente escolar para identificação de possíveis sinais do autismo, discutir o papel do professor da sala regular e do Atendimento Educacional Especializado no processo de identificação e acompanhamento do aluno com TEA e refletir sobre a necessidade da formação continuada dos docentes para construção de práticas pedagógicas inclusivas.
A escolha do tema justifica-se pela relevância social, educacional e cientifica da discussão acerca do autismo e da inclusão escolar, uma vez que, apesar dos avanços legais e pedagógicos, ainda persistem desafios significativos na identificação precoce do TEA e na efetivação das práticas inclusivas no cotidiano escolar. Investigar o papel da observação docente contribui para ampliar a compreensão sobre a importância do professor como agente fundamental nesse processo. Do ponto de vista científico, este estudo soma-se às produções acadêmicas voltadas à interface entre educação inclusiva e autismo, reforçando a necessidade de um olhar sensível, ético e fundamentado sobre a diferença humana, além ade contribuir para a construção de uma escola comprometida com a valorização da diversidade e com o direito à aprendizagem de todos os alunos.
2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.1 A complexidade do diagnóstico do autismo
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) não possui um marcador biológico único que comprove sua existência. Por isso, o diagnóstico é essencialmente clínico, realizado a partir da observação do comportamento, da análise do histórico de desenvolvimento e dos relatos de familiares ou cuidadores. Esse processo se baseia em critérios diagnósticos reconhecidos internacionalmente, como os utilizados pelo DSM-5 e pelo CID-11.
O Transtorno do Espectro Autista manifesta-se nos primeiros anos de vida, proveniente de causas ainda desconhecidas, mas com grande contribuição de fatores genéticos. Trata-se de uma síndrome tão complexa que pode haver diagnósticos médicos abarcando quadros comportamentais diferentes. Tem em seus sintomas incertezas que dificultam, muitas vezes, um diagnóstico precoce (CUNHA, 2014, p.19).
Dessa forma, o diagnóstico do autismo precisa ser visto como um processo constante, atento e personalizado, que considera não apenas as características principais do transtorno, mas também o contexto de vida e as demandas específicas de cada indivíduo.
Portanto quando falamos em observar padrões de comportamento para identificar sinais do Transtorno do Espectro Autista (TEA), é importante considerar a individualidade de cada pessoa. Por isso, a observação sistemática é fundamental, tanto no ambiente institucional quanto clínico. É necessário compreender como identificar esses padrões, de que forma eles se manifestam no cotidiano, em diferentes contextos e interações sociais, e quais aspectos do desenvolvimento, podem indicar a necessidade de uma avaliação mais detalhada por parte de profissionais especializados.
O Transtorno do Espectro Autista se caracteriza pela dificuldade na comunicação, na interação social e padrões restritos e repetitivos de comportamento a chamada tríade do autismo.
A Tríade do Autismo, proposto por Lorna Wing em 1979, ajuda a entender as características do TEA, Ela propõe a observação de comportamentos em três áreas principais para auxiliar na identificação do transtorno.
Socialização: refere-se à interação social, na qual observam-se dificuldade em iniciar ou manter contato social, pouca troca afetiva, evidenciada pela ausência de compartilhamento social espontâneo de interesse ou pela não busca pela atenção do outro, além da preferência por atividades solitárias.
Comunicação: refere-se à comunicação verbal e não verbal, caracterizada por atraso ou ausência da fala funcional, uso restrito ou incomum da linguagem, como ecolalia, inversão pronominal e a fala monótona. Além disso observa-se dificuldade no uso de gestos, expressões faciais e contato visual como recurso comunicativo.
Padrões restritos e repetitivos de comportamentos: envolvem prejuízos na imaginação e a presença de comportamentos restritos e repetitivos, que se manifestam em brincadeiras pouco simbólicas ou repetitivas, fixação em rotinas e resistência a mudança. Observa-se ainda a presença de movimento estereotipados, como balançar as mãos ou alinhar os objetos, bem como interesse intensos e restrito.
Apesar de o autismo se caracterizar a partir dessas áreas, ele não se manifesta da mesma forma em todas as crianças, o que torna a identificação de seus sinais ainda mais complexas. Cada indivíduo apresenta combinações distintas de características, com diferentes graus de intensidades e formas de expressão dentro do espectro. Os comportamentos, por sua vez, podem variar entre traços mais intensos e evidentes ou mais sutis, muitas vezes passando despercebidos. Nesse sentido, observa-se uma grande dificuldade, por parte dos profissionais tanto da saúde quanto da educação, em compreender esses padrões comportamentais, o que frequentemente dificulta e retarda o diagnóstico.
A colaboração entre profissionais da educação, familiares e profissionais da saúde é fundamental para a construção de um diagnóstico e acompanhamento mais preciso. Relatos de pais e educadores fornecem informações valiosas sobre o desenvolvimento da criança em diferentes contextos, possibilitando uma visão ampla e detalhada, o que contribui para que o diagnóstico seja realizado de forma mais ágil.
Nos últimos anos, a escola tem assumido um papel cada vez mais relevante na identificação precoce dos sinais do autismo, por meio da observação sistemática do comportamento das crianças e do encaminhamento para avaliações especializadas quando necessário. A observação realizada no ambiente escolar constitui um importante ponto de partida para a identificação de possíveis traços do autismo.
Desse modo, é imprescindível que o professor compreenda sobre essas características, bem como tenha conhecimento dos marcos do desenvolvimento infantil, pois, embora a observação mais sistematizada esteja a cargo do Atendimento Educacional Especializado (AEE), a atuação do professor da sala regular é fundamental no reconhecimento inicial desses sinais.
2.2 O papel da observação docente
A identificação dos padrões de comportamentos do autismo no contexto escolar é um processo contínuo que exige preparo, observação e sensibilidade por parte dos professores. A literatura aponta que o TEA é um fenômeno complexo, ainda cercado de incerteza, o que demanda humildade constante e atualização profissional.
A observação constitui uma ferramenta essencial para a identificação de padrões característicos, tais como dificuldade na comunicação, comportamentos repetitivos e restritos como resistência na mudança de rotina, bem com ausência ou prejuízo na interação social como isolamento, pouca iniciativa para interações ou dificuldades em manter trocas sociais. Nesse sentido, o olhar atento do professor assume o papel central, pois possibilita detecção precoce de sinais e, consequentemente, o encaminhamento para uma avaliação mais precisa junto ao AEE, contribuindo para o planejamento e a implementação de intervenções pedagógicas mais eficazes inclusivas.
Nesse sentido, o exercício de um bom professor começa pela observação. E, para observar, é preciso saber o que observar. E, para saber o que observar, é preciso formação. Como a percepção de um bom músico, será a percepção de um bom professor, capaz de identificar detalhes comumente não notados. (CUNHA, 2013, p. 55).
A questão central reside em compreender como identificar os padrões quando estes se apresentam de forma sutil. Enquanto os comportamentos rígidos são mais evidentes e, portanto, facilmente reconhecíveis, os traços sutis exigem um olhar atento e sensível para serem percebidos. É importante destacar que, ao se tratar da comunicação, ela não se restringe apenas a falta, mas a um ato mais amplo de transmitir e compartilhar significados. Muitas vezes, um aluno pode ser interpretado equivocadamente como mal-educado, quando, na realidade, manifesta padrão rígido e particular de comunicação, a comunicação literal e sem filtro social.
Do mesmo modo, é um equívoco considerar que um comportamento restrito e, ou repetitivos se limita ao simples ato de enfileirar objetos ou realizar movimentos com as mãos. Há outros aspectos relevantes a serem analisados, tais como: a função que o comportamento desempenha para o sujeito (autorregulação, busca de previsibilidade, redução de ansiedade e outros), a frequência com que ocorre a intensidade e a flexibilidade apresentada diante de mudança no contexto. Além disso, é necessário observar se tais comportamentos interferem significativamente na adaptação social e escolar ou se constituem apenas uma forma de organização individual.
No que se refere a interação social, não se deve restringir a análise apenas ao ato de isolar-se. Embora alguns indivíduos com autismo apresentem comportamentos de retraimento, é importante considerar que muitos não se isolam por completo, mas manifestam um padrão restrito de interação. Em alguns casos, tendem a estabelecer vínculos com uma única pessoa e a direcionar suas interações exclusivamente a ela, o que revela uma forma limitada de socialização, ainda que não caracterizada pelo isolamento completo.
Desse modo, a identificação dos padrões de comportamentos do autismo no contexto escolar exige um olhar atento, informado e sensível, capaz de distinguir entre comportamentos aparentemente semelhantes, mas com significados distintos para cada aluno.
Devemos realçar que, ainda hoje, ninguém sabe dizer ao certo e de forma indiscutível, o que é o Autismo. Assim, não podemos nos afastar da recomendação de Leo Kanner em relação à adoção de uma postura de humildade, cautela diante do tema, já que compreender o Autismo exige uma constante aprendizagem, uma revisão contínua das nossas crenças, valores e dos nossos conhecimentos sobre o mundo e, sobretudo sobre nós mesmos (CAVACO, 2014, p. 45).
O reconhecimento dos padrões sutis e variados do comportamento de alunos permite que o professor atue de forma preventiva e intencional, ajustando sua prática pedagógica às necessidades individuais do aluno.
A prática docente torna-se assim um processo reflexivo, no qual a observação e a compreensão do comportamento funcionam como instrumentos fundamentais para favorecer o desenvolvimento integral do aluno. Desse modo, o papel do professor nessa esfera vai além da detecção de sinais, pois envolve a construção de práticas pedagógicas inclusivas que valorizem as potencialidades dos alunos, respeitando suas diferenças. Nesse cenário a observação docente permite que o professor construa recursos didáticos e realize adaptações pedagógicas elementos essenciais para garantir o direito à aprendizagem e à inclusão escolar.
Para Mantoan (2015), o essencial não é modificar o currículo ou o conteúdo, mas sim os recursos e estratégias pedagógicas, de modo que o aluno possa aprender o mesmo que os colegas. Isso implica repensar metodologias, flexibilizar a comunicação e o oferecer suporte que respeitem as necessidades específicas, sem restringir o acesso ao conhecimento. Nessa perspectiva, a inclusão escolar exige uma mudança de olhar, na qual as diferenças deixam de ser vistas como obstáculos e passam a ser compreendidas como parte constitutivas do processo educativo.
Compreender o Autismo é abrir as portas para o entendimento do nosso próprio desenvolvimento […]. Os autistas não são anti-sociais… Simplesmente não os entendemos devido à nossa incapacidade de nos ajustarmos à diferença, seja ela que tipo for. (CAVACO, 2014, p. 46).
O desafio da inclusão escolar não está apenas no autismo, mas também na capacidade da sociedade em reconhecer e valorizar a diversidade. Sendo assim, compreender o autismo vai além de um simples ato, é um compromisso social que envolve sensibilidade, paciência e empatia.
Partindo desse ponto, pode-se afirmar que compreender o Transtorno do Espectro Autista (TEA), e suas singularidades no contexto escolar vai além da adaptação curricular, implica reconhecer o aluno em sua totalidade, acolhendo suas formas próprias de aprender, sentir e se relacionar, e construir um ambiente escolar pautado no respeito, na empatia e na valorização do outro como ser único e intransponível.
Segundo Capellini (2018, p. 26), “[…] entender o outro enquanto diferente não significa aceitar que ele difere de nós, mas sim buscarmos alternativas para nos comunicarmos, promovendo interação e desenvolvimento coletivo”.
Diante dos aspectos mencionados, percebe-se a importância de investir em formações continuadas voltadas aos professores de sala de aula regular, uma vez que são esses profissionais que permanecem a maior parte do tempo com os alunos em sala de aula. Assim, o professor torna-se o primeiro a observar comportamentos que destoam dos marcos do desenvolvimento infantil, bem como a identificar possíveis traços do Transtorno do Espectro Autista.
Esse olhar inicial, quando fundamentado em conhecimentos teóricos e práticos contribui significativamente para o encaminhamento adequado das crianças aos serviços especializados, favorecendo a realização de avaliações mais precisas. Dessa forma, a formação docente configura-se como elemento essencial para construção de uma escola verdadeiramente inclusiva, na qual a diversidade seja compreendida, respeitada e acolhida desse os primeiros sinais observados no cotidiano escolar.
3 MATERIAL E MÉTODOS
A presente pesquisa caracteriza-se como um estudo de natureza qualitativa, com abordagem bibliográfica de descritiva, tendo como foco a compreensão da complexidade do diagnóstico do Transtorno do Espectro Autista (TEA) e o papel da observação docente na percepção dos padrões de comportamentos do autismo no contexto escolar. A opção pela pesquisa bibliográfica justifica-se por possibilitar o levantamento, a analise e a interpretação de produções cientificas já conhecidas sobre o tema, permitindo uma reflexão fundamentada teoricamente .Nesse sentido, o levantamento bibliográfico surgiu o enfoque proposto Marconi e Lakatos (2003, p.158), segundo as quais “a pesquisa bibliográfica é um apanhado geral sobre os principais trabalhos já realizados, revestidos de importância, por serem capazes de fornecer dados atuais e relevantes relacionados com o tema.”
O objetivo do estudo consiste na análise das contribuições teóricas acerca do TEA, dos padrões de comportamentos do autismo e da importância da observação sistemática realizada pelos professores da sala regular e do Atendimento Educacional Especializado (AEE). O corpus da pesquisa foi composto por publicações acadêmicas incluídos livros, artigos científicos de autores referência nas áreas do autismo e da educação inclusiva, entre eles Cunha(2013,2014), Wing (1979), Cavasco (2014) Mantoan (2015) e Capaellinii (2018).
Os procedimentos metodológicos envolveram, inicialmente, o levantamento das obras relacionadas ao tema religado nas bases de dados Google Acadêmico e Periódicos do CAPES, seguido da leitura exploratória, analítica e interpretativa do material relacionado. Posteriormente, realizou-se sistematização dos dados teóricos, organizando-os em categorias temáticas relacionadas ao diagnóstico do TEA, aos padrões comportamentais característicos do espectro e ao papel da observação docente no contexto educacional. A analise dos dados ocorreu de forma qualitativa buscando estabelecer relação entre os aportes teóricos e a prática docente, de modo a compreender como a observação docente contribui para identificação precoce dos sinais do autismo.
Ressalta-se que a metodologia adotada apresenta limitação a ausência de pesquisa de campo, uma vez que se fundamenta exclusivamente em fontes bibliográficas. Contudo, tal escolha se sustenta pela intenção de aprofundar a discussão teórica e contribuir para o fortalecimento do conhecimento científico na área da educação inclusiva, oferecendo subsídios para futuras investigações empíricas sobre o tema.
4 RESULTADOS E DISCUSSÃO
A análise das produções cientificas selecionadas permitiu identificar que o diagnóstico do Transtorno do Espectro Autista (TEA) configura-se como um processo complexo, multifacetado e clínico, fundamentado na observação sistemática dos comportamentos e na análise do desenvolvimento em diferentes contextos. Os estudos revisados reforçam que a ausência de um marcador biológico específico torna a observação um elemento central tanto no âmbito da saúde quanto no contexto educacional, evidenciando a relevância do papel da escola nesse processo.
Os resultados apontam que a observação no ambiente escolar apresenta um potencial significativo para identificação precoce do TEA, especialmente por possibilitar o acompanhamento contínuo da criança em situação de interação social, comunicação e por estabelecer rotinas bem definidas. Nesse sentido, os autores analisados convergem ao destacar que o professor de sala regular, por estarem em contato com o aluno, ocupa uma posição estratégica na percepção de comportamentos que se distanciam dos marcos do desenvolvimento infantil. (CUNHA, 2013;2014).
A literatura evidencia que os padrões de comportamento associados ao TEA, como dificuldades na comunicação, prejuízo na interação social e comportamentos restritos e repetitivos, manifestam-se de forma heterogênea, com diferentes níveis de intensidade e expressão. Essa variabilidade reforça a necessidade de um olhar atento e sensível por parte do professor, sobretudo aqueles interpretados de maneira equivocadas no cotidiano escolar. Nesse sentido, a tríade do autismo, proposta Wing(1979), constitui um importante referencial teórico para observação desses padrões, pois serve como parâmetro para identificação de traços do autismo. Entretanto faz-se necessária considerar a individualidade de cada sujeito, bem como a intensidade com que esses traços se manifestam.
Outro aspecto recorrente nos estudos refere-se à importância da articulação entre o professor da sala regular, o professor do Atendimento Educacional especializado (AEE), a família e os profissionais da saúde. Os resultados indicam que o compartilhamento de informações provenientes de diferentes contextos contribui para uma compreensão mais ampla do desenvolvimento da criança, favorecendo encaminhamentos mais adequados e intervenções pedagógicas mais eficazes. Tal articulação mostra-se fundamental tanto para o processo de identificação quanto para o acompanhamento educacional do aluno com TEA.
No que diz respeito às práticas pedagógicas, os autores destacam que a observação docente não se limita à identificação de sinais, mas constitui um instrumento para o planejamento de estratégias pedagógicas inclusivas. A partir da compreensão das necessidades, potencialidades e formas próprias de aprendizagem do aluno, o professor pode adaptar recursos, flexibilizar metodologias e promover um ambiente escolar mais acessível e acolhedor, conforme definido por Mantoan (2015). Desse modo, os resultados reforçam que a inclusão escolar não se restringe à adaptação curricular, mas envolve mudanças de postura pedagógica e de concepção sobre a diferença.
Por fim, a análise da literatura evidencia a formação continuada dos professores como um fator determinante da inclusão escolar, uma vez que os estudos apontam que a falta de conhecimento sobre os critérios pré-estabelecido sobre o TEA e sobre os marcos do desenvolvimento infantil configura um dos principais desafios enfrentados pelos docentes. Assim, investir em formação teórica e prática mostra-se indispensável para qualificar o olhar docente, ampliar a capacidade de observação e favorecer a construção de práticas pedagógicas verdadeiramente inclusivas.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS/CONCLUSÃO
O presente estudo teve como objetivo compreender o papel da observação docente no contexto escolar como elemento essencial para a identificação precoce de sinais do autismo e para a promoção de práticas pedagógicas inclusiva. A partir da revisão bibliográfica realizada, foi possível constatar que o objetivo proposto foi alcançado, uma vez que os resultados evidenciam a centralidade da observação sistemática no processo de identificação do TEA e no acompanhamento educacional dos alunos.
Em respostas ao problema de pesquisa, verificou-se que o diagnóstico do autismo, por não dispor de um marcador biológico específico, demanda um olhar atento, continuo e fundamentado teoricamente, voltado à identificação de padrões comportamentais, sem desconsiderar a singularidade de cada indivíduo. Nesse contexto, a escola assume papel fundamental, especialmente por ser um espaço privilegiado de socialização, comunicação e desenvolvimento. O professor da sala regular ao acompanhar os alunos diariamente, torna-se um dos primeiros a perceber comportamentos que podem indicar sinais do TEA, reforçando a importância da observação docente como ferramenta pedagógica e na identificação precoce do autismo.
Desse modo, conclui-se que a observação docente se constitui como base na identificação de comportamentos atípicos, e na construção de práticas pedagógicas inclusivas que respeitem as diferenças e valorizam as potencialidades dos alunos. Evidencia-se, ainda, que a atuação multissetorial entre educação e saúde, alinhada ao apoio da família, é indispensável para garantir um diagnóstico mais preciso e não tardio, o que contribui significativamente para o desenvolvimento integral e evolução da criança com TEA.
No que se refere à limitação da pesquisa, destaque-se a ausência de investigação empírica, de modo que o estudo se fundamentou exclusivamente em fontes bibliográficas. Embora essa escolha tenha possibilitado um aprofundamento teórico consistente sobre o tema, reconhece-se a necessidade de estudo de campo que permita observar, na prática, como a observação docente ocorre no cotidiano escolar e quais estratégias pedagógicas inclusivas vêm sendo efetivamente utilizadas no ensino dos alunos com TEA.
Diante disso, recomenda-se a realização de pesquisas futuras que envolvem professores, equipes pedagógicas e profissionais do AEE, a fim de analisar práticas observacionais, estratégias e processos formativos relacionados à inclusão de alunos com TEA. Tais investigações poderão contribuir para aprimoramento das políticas educacional das práticas escolares.
Para finalizar, este estudo apresenta contribuições relevantes para a ciência e para a área educacional ao reforçar a importância da observação docente como instrumento fundamental no processo precoce do TEA e na promoção de práticas pedagógicas inclusivas. Do mesmo modo, evidencia a necessidade de investimento em formação continuada dos professores, ampliando o conhecimento científico sobre o autismo e qualificando as ações pedagógicas no contexto escolar. Compreender o TEA, nesse sentido, configura-se como um compromisso ético, social e pedagógico, voltado à construção de uma escola inclusiva que reconheça, respeite e valorize a diversidade humana, assegurando o direito equitativo à aprendizagem de todo os alunos.
REFERÊNCIAS
CAPELLINI, V. L. M. F. Adaptações curriculares na inclusão escolar: contrastes e semelhanças entre dois países. Curitiba: Appris, 2018.
CAVACO, J. Autismo: compreender e incluir. Lisboa: Pactor, 2014.
CUNHA, M. Autismo e educação: desafios e possibilidades. São Paulo: Cortez, 2014.
CUNHA, M. Educação inclusiva: práticas pedagógicas. São Paulo: Cortez, 2013.
MANTOAN, M. T. E. Inclusão escolar: o que é? por quê? como fazer? São Paulo: Moderna, 2015.
MARCONI, Marina de Andrade; LAKATOS, Eva Maria. Fundamentos de Metodologia Científica. 5ª Ed. Editora Atlas SA, São Paulo, 2003.
WING, Lorna. The handicaps of autistic children: a comparative study. Journal of Child Psychology and Psychiatry, v. 20, n. 2, p. 119–132, 1979. Disponível em: : THE HANDICAPS OF AUTISTIC CHILDREN—A COMPARATIVE STUDY acesso em: 16/10/2025.

















