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Soledadense realizará o sonho de se formar em Agronomia aos 74 anos de idade

Nunca é tarde para realizar os sonhos. Esta frase é bem conhecida, mas muitas vezes a intensidade da idade não permite olhar dessa forma, principalmente quando se trata de um curso de graduação. Seu Lotar Camargo de Oliveira é o quarto filho de uma família de oito, sempre sonhou em estudar e garantir um futuro melhor, mas a condição econômica e o trabalho árduo junto aos seus pais não lhe permitiram que esse desejo fosse realizado quando jovem.

O tempo passou, construiu sua própria família e dedicou boa parte da vida à profissão de motorista, a qual lhe deu a possibilidade de ajudar os filhos a se graduarem, entretanto, seu sonho continuava guardado. Com a chegada da aposentadoria e o apoio, principalmente dos filhos e da esposa, novas possibilidades foram surgindo, entre elas o início da graduação em Agronomia, encarando o desafio de voltar para a sala de aula.

A escolha pelo curso se deve a própria observação pelas áreas em que se destacava na época da escola, mas também às demandas do mercado de trabalho, observadas no decorrer das viagens profissionais que realizou ao longo dos anos. “ Eu me saia muito bem em química e áreas afins, por isso achei por bem fazer Agronomia. Mas há um outro fato também, esse é um campo amplo e com grande carência de profissionais, então, talvez alguém não olhe só para a minha idade e me permita estar no campo que é o que eu realmente quero”, explica o futuro engenheiro agrônomo.

“A construção de adquirir o conhecimento é pessoal”

Seu Lotar conta que sempre foi um apaixonado por leitura, e isso certamente o ajudou na hora de prestar o vestibular e acompanhar as aulas. Durante a formação algumas pessoas questionaram sobre a convivência com os professores e colegas mais jovens, mas ele pontua que isso não foi um obstáculo.  “Integração é a palavra chave e eu nunca tive dificuldade com isso” e complementa “ aqui formou-se uma família, amigos e muito respeito”.

Para poder cursar a graduação mais de 70 km eram percorridos diariamente entre Soledade, sua cidade de origem, até Passo Fundo. Mesmo com a distância, essa nunca foi uma desculpa para faltar aulas ou deixar de cumprir com os compromissos, “sou igual a todos, cobrado como qualquer um aqui dentro, a única diferença é a idade”, e justamente essa diferença é o que lhe torna um exemplo, “o que o idoso carrega consigo? Responsabilidade! E eu trouxe comigo, para dentro da IDEAU, essa responsabilidade. Muitas vezes os jovens não se preocupam muito com isso, mas eu sempre me preocupei com as obrigações”, destaca.

A coordenadora do curso, Katia Trevizan, enfatiza que essa responsabilidade citada por Lotar sempre esteve, de fato, muito presente ao longo da trajetória acadêmica. “Ele sempre vinha para a aula com a leitura feita, o conteúdo impresso e as anotações já executadas. Em relação aos mais jovens ele tinha um pouco mais de dificuldade, e sabendo disso, já chegava mais preparado para acompanhar a aula”.

Mesmo durante o árduo período da pandemia, ele não abriu mãos dos estudos, e ainda incentivava os colegas a fazer o mesmo. “As aulas começam às 19h20, mas quando eram 19h já estava com o computador ligado. Eu também ajudava para que a turma viesse para a aula, mesmo cada um estando em sua casa”, comenta. A coordenadora ressalta que nesse período a ajuda da família e dos colegas foi fundamental. “ Os filhos e a neta ajudaram muito na pandemia, assim como os colegas auxiliavam em sala de aula. Ele dava a melhor parte dele, através do conhecimento adquirido, e os colegas iam redigindo de acordo com o que ele posicionava, sempre o inserindo nos trabalhos”, destaca Trevizan, abordando que apesar desse olhar mais cuidadoso, nunca foi preciso diferenciá-los dos demais.

As adversidades do caminho 

No decorrer do curso, a saúde deu alguns sinais de alerta, precisando enfrentar dois tratamentos de câncer, um processo desgastante, mas os estudos e o apoio da comunidade acadêmica serviram para que a doença não tomasse conta dos pensamentos. “Tinha dias que eu não me sentia bem, mas eu aguentava, porque aquela presença ia fazer falta na minha formação, e no final os professores sempre vinham me perguntar como que eu estava” e complementa “aonde eu ia, no consultório médico, eu levava meus estudos. Os médicos me viam e já sabiam que eu estava com a apostila de Agronomia”, relembra com orgulho da trajetória.

Contagem regressiva

Na sexta-feira, 19 de novembro, o acadêmico defendeu o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) e foi aprovado. Agora, aos 74 anos de idade, o sonho de infância se tornará realidade e o tão almejado diploma chegará, acompanhado de muita superação e dedicação. A formatura está marcada para fevereiro de 2022.

Após se formar ele não pretende parar, quer exercer a profissão para a qual dedicou seus últimos cinco anos, “para mim trabalhar de engenheiro agrônomo, enfrentar o sol no meio da lavoura, é um passeio”, comenta com a expectativa de conquistar uma vaga no mercado de trabalho.

Através da sua trajetória, ele garante que apesar da idade chegar, os sonhos não envelhecem, e para realizá-los é preciso ter determinação. “ A primeira coisa é focar no sonho, em seguida é preciso mentalizar isso. Eu falava para todo mundo que iria fazer e Deus ouviu as minhas palavras, hoje posso dizer que praticamente já sou um engenheiro agrônomo”, finaliza.

Kátia, que agora ganhará mais um colega de profissão, sente-se orgulhosa por ter acompanhado todo o processo de formação, e garante que a história do estudante mais velho da IDEAU servirá de inspiração. “Ele tem um objetivo de vida que é a formação em Agronomia e isso, enquanto pessoa e profissional, só me mostra que quando a gente tem foco e objetivos somos capazes de alcançar os sonhos, independentemente do que for e por maiores que forem as dificuldades. É isso que o Seu Lotar vai deixar para a Instituição e para os colegas”, conclui.