Notícias • Segurança

Caso Paula: relembre o desaparecimento, a investigação e os acontecimentos que levaram ao julgamento em Soledade

Mais de seis anos após a morte de Paula Perin Portes, o caso que mobilizou Soledade e a região voltou ao centro das atenções com o início do Tribunal do Júri dos quatro acusados, nesta terça-feira, 20 de outubro de 2026. O julgamento ocorre na Câmara de Vereadores de Soledade, sob a presidência do juiz José Pedro Guimarães, e deverá se estender pelos próximos dias.

O desaparecimento da jovem, então com 18 anos, em junho de 2020, deu início a uma investigação que envolveu buscas em propriedades rurais, análise de imagens de câmeras de segurança, prisões e diferentes linhas de apuração. O corpo foi encontrado somente em agosto daquele ano, após mais de dois meses de buscas.

Segundo a denúncia do Ministério Público, Paula teria sido atraída para uma residência no bairro Fontes, onde foi morta por asfixia. A acusação sustenta que o crime foi motivado por vingança e pelo receio de que a jovem revelasse informações sobre atividades criminosas atribuídas a um dos envolvidos.

As circunstâncias do crime e a participação atribuída a cada acusado estão sendo examinadas pelo Conselho de Sentença, formado por sete jurados, responsáveis pela decisão sobre a responsabilidade criminal dos réus.

QUEM ERA PAULA PERIN PORTES

Natural de Encantado e criada em Fontoura Xavier, Paula havia completado 18 anos em maio de 2020. Poucas semanas antes do desaparecimento, mudou-se para Soledade, onde passou a morar com o pai.

A jovem buscava uma oportunidade de emprego e pretendia iniciar uma nova etapa da vida. Caso não conseguisse trabalho no município, considerava mudar-se para Porto Alegre, onde tinha familiares.

Paula gostava de animais e tinha o sonho de cursar Medicina Veterinária. Também participava de atividades esportivas, especialmente vôlei e futsal, modalidades nas quais conquistou medalhas e troféus em competições regionais.

A NOITE DE 10 DE JUNHO DE 2020

Na noite de 10 de junho, Paula estava na companhia de amigos, participando de um encontro no qual jogavam cartas e confraternizavam.

Durante a noite, passou a trocar mensagens com um rapaz com quem já mantinha contato pelas redes sociais. Conforme os elementos apresentados durante a investigação, ela deixou o encontro para encontrá-lo em uma residência localizada no bairro Fontes, em Soledade.

Amigos levaram Paula até o endereço indicado, onde havia um galpão com uma área utilizada como residência.

Segundo a denúncia do Ministério Público, o convite teria sido utilizado para atrair a jovem até o imóvel, sob o pretexto de uma confraternização.

A acusação sustenta que, entre aproximadamente 0h50 e 1h35 de 11 de junho, quatro homens participaram da morte de Paula por asfixia.

Conforme a versão apresentada pelo Ministério Público, um dos denunciados teria convidado a jovem e permanecido com ela até a chegada dos demais. Na sequência, os acusados teriam agido de forma conjunta para impedir que Paula deixasse o local ou conseguisse se defender.

A denúncia atribui aos quatro réus participação no homicídio, com diferentes condutas. Essas alegações estão sendo submetidas à análise dos jurados, considerando os elementos apresentados pela acusação e os argumentos das defesas.

O DESAPARECIMENTO E AS PRIMEIRAS INVESTIGAÇÕES

No dia seguinte, diante da ausência de notícias da filha, o pai de Paula procurou a Polícia Civil para comunicar o desaparecimento.

As primeiras diligências buscaram reconstruir os últimos passos da jovem, identificar as pessoas com quem ela havia estado e localizar o imóvel onde ocorreu o encontro.

Inicialmente, a investigação recebeu relatos indicando que Paula teria deixado a residência sozinha. Entretanto, novas informações e a análise de imagens de câmeras de segurança levaram os policiais a questionar essa versão.

As gravações obtidas em uma residência próxima registraram movimentações de pessoas e veículos durante a madrugada.

Conforme a interpretação apresentada pela Polícia Civil, as imagens indicavam a chegada de outros indivíduos ao imóvel e, posteriormente, a saída de pessoas carregando o que os investigadores relacionaram ao corpo da jovem.

As gravações passaram a integrar o conjunto de elementos da investigação, juntamente com depoimentos e outras informações reunidas pelas equipes policiais. A identificação individual das pessoas filmadas, entretanto, não pôde ser estabelecida com segurança apenas pelas imagens, questão que também foi discutida durante o julgamento.

PRISÕES E BUSCAS PELO CORPO

As primeiras prisões relacionadas à investigação ocorreram ainda em junho de 2020. Um dos investigados foi preso em 16 de junho, enquanto outras duas prisões temporárias foram confirmadas pela Polícia Civil no dia 22.

As buscas passaram a envolver diferentes localidades de Soledade e da região, com apoio de equipes especializadas, policiais e bombeiros.

Entre os dias 23 e 24 de junho, informações relacionadas à localização do telefone celular de Paula levaram os investigadores a uma propriedade rural em Fontoura Xavier, onde havia açudes. Apesar das diligências, a jovem não foi encontrada.

Em julho, as investigações continuaram, enquanto um dos suspeitos permanecia foragido.

No dia 4 de agosto, uma bolsa pertencente a Paula foi encontrada submersa em um açude nas proximidades da ERS-332, no bairro Ipiranga, em Soledade.

A descoberta levou à realização de novas buscas, incluindo o esvaziamento do açude, mas o corpo não foi localizado naquele momento.

Em 8 de agosto, outros dois investigados foram presos por suspeita de interferência nas investigações.

O CORPO É ENCONTRADO APÓS MAIS DE DOIS MESES

Na noite de 16 de agosto de 2020, o corpo de Paula foi encontrado enterrado em uma área de mata fechada, de difícil acesso, na localidade de Rincão do Bugre, interior de Soledade.

Os trabalhos de identificação e perícia avançaram pela madrugada do dia 17. Roupas e uma tatuagem auxiliaram no reconhecimento.

Durante a investigação, a Polícia Civil trabalhou com a hipótese de que o corpo havia sido enterrado inicialmente em outro local e posteriormente transferido.

Conforme a denúncia do Ministério Público, após a morte, os envolvidos teriam retirado o corpo da residência e o transportado até uma propriedade rural, onde foi ocultado.

Posteriormente, segundo a acusação, o cadáver teria sido levado para outra área rural, com o objetivo de dificultar sua localização.

O laudo de necropsia apontou a asfixia como causa da morte.

O QUE DIZ A DENÚNCIA DO MINISTÉRIO PÚBLICO

A Polícia Civil concluiu o inquérito em 4 de setembro de 2020, com o indiciamento de cinco pessoas investigadas. Naquele momento, quatro foram indiciadas por homicídio qualificado, ocultação de cadáver e organização criminosa, enquanto uma quinta foi indiciada por ocultação de cadáver e organização criminosa.

Em 22 de outubro daquele ano, o Ministério Público apresentou denúncia contra cinco investigados, com imputações relacionadas ao homicídio e a outros crimes apurados durante a investigação.

Ao longo da tramitação judicial, o processo passou por diferentes decisões e discussões sobre as acusações e as provas que seriam submetidas ao Tribunal do Júri.

No julgamento iniciado em outubro de 2026, quatro réus respondem por homicídio qualificado por emprego de asfixia, dissimulação e recurso que dificultou a defesa da vítima. Um deles também responde por ocultação de cadáver.

Os acusados são Gesriel da Cunha Wedy, Dionatan Portella da Silva, Micael Willian Rossi Ortiz e João Albino Abegg dos Santos.

Segundo o Ministério Público, a morte de Paula teria sido motivada por vingança, relacionada ao conhecimento que a jovem possuía sobre episódios de violência doméstica envolvendo um dos acusados e sua ex-companheira, que era amiga de Paula.

A acusação sustenta que Paula teria presenciado agressões praticadas contra essa amiga, circunstância que teria contribuído para a motivação do crime.

O Ministério Público também aponta que a jovem poderia ter conhecimento de informações relacionadas ao envolvimento de denunciados com atividades criminosas, incluindo tráfico de drogas, contrabando de cigarros e organização criminosa.

Na tese apresentada pela acusação, o homicídio teria sido cometido também para impedir que essas informações chegassem às autoridades.

A AMIGA DE PAULA MENCIONADA NA INVESTIGAÇÃO

Um dos pontos considerados pela investigação envolve a amizade de Paula com uma jovem que havia mantido relacionamento com um dos acusados.

Conforme a denúncia, Paula teria presenciado episódios de violência doméstica contra essa amiga, circunstância apontada pelo Ministério Público como parte da motivação do homicídio.

A amiga, identificada como Thaís Corrêa de Oliveira, morreu em outubro de 2022, antes da realização do Tribunal do Júri do caso Paula Perin Portes.

A morte de Thaís foi mencionada durante os trabalhos em plenário, inclusive em questionamentos relacionados à produção de provas e à impossibilidade de ouvi-la no julgamento atual.

Trata-se de um acontecimento distinto, e as informações apresentadas até o momento não permitem estabelecer relação entre a morte de Thaís e o crime pelo qual os quatro réus estão sendo julgados.

DA CONCLUSÃO DO INQUÉRITO AOS ADIAMENTOS DO JÚRI

A conclusão da investigação policial, em setembro de 2020, não representou o encerramento do caso. Após o oferecimento da denúncia pelo Ministério Público, o processo passou por diferentes etapas judiciais, incluindo produção de provas, manifestações das partes e recursos.

Em 4 de janeiro de 2021, Micael Willian Rossi Ortiz, que permanecia foragido, foi localizado e preso em Balneário Camboriú, Santa Catarina, em uma operação envolvendo policiais civis de Soledade e apoio das forças de segurança catarinenses.

Com o avanço do processo, o julgamento pelo Tribunal do Júri chegou a ser marcado para 2 de dezembro de 2025.

Entretanto, em novembro daquele ano, a sessão foi adiada em razão de questões processuais, incluindo uma perícia pendente em imagens de vídeo solicitada pela defesa e discussões sobre testemunhas que poderiam ser ouvidas em plenário.

Posteriormente, o julgamento foi remarcado para fevereiro de 2026 e depois transferido para abril.

Em 7 de abril de 2026, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) determinou a suspensão da sessão após pedido do Ministério Público, que apontou risco de nulidade processual em razão de questões relacionadas às testemunhas da acusação.

A discussão envolvia a adequação da lista de testemunhas e a possibilidade de produção de determinadas provas em plenário. O mérito do recurso ainda aguardava análise do STJ quando o julgamento de outubro foi anunciado.

Em agosto de 2026, uma decisão do STJ também determinou a revogação da prisão preventiva de um dos acusados.

O JULGAMENTO EM OUTUBRO DE 2026

O Tribunal do Júri começou na terça-feira, 20 de outubro, na Câmara de Vereadores de Soledade, em uma estrutura organizada para receber jurados, magistrado, representantes do Ministério Público, advogados, familiares e demais participantes.

A sessão é presidida pelo juiz José Pedro Guimarães e envolve quatro acusados, cujas responsabilidades serão avaliadas individualmente pelo Conselho de Sentença.

No primeiro dia, foram realizados quatro depoimentos, incluindo relatos sobre as circunstâncias da morte da jovem, a trajetória de Paula e informações relacionadas às investigações conduzidas pela Polícia Civil.

A sessão também teve questionamentos sobre os elementos reunidos ao longo do processo, manifestações da acusação e das defesas e decisões judiciais sobre a condução dos trabalhos.

O julgamento segue nesta quarta-feira, 21 de outubro, com a continuidade dos depoimentos. A expectativa é concluir a fase de produção de provas, permitindo que os debates formais entre acusação e defesa ocorram na quinta-feira (22).

O veredito poderá ser anunciado ainda na quinta-feira ou na sexta-feira (23), dependendo do andamento das sessões e das condições dos jurados.

O QUE SERÁ DECIDIDO PELOS JURADOS

O Conselho de Sentença é formado por sete jurados, responsáveis por analisar as provas, os depoimentos e os argumentos apresentados pelas partes.

Ao final da instrução, o Ministério Público e as defesas terão oportunidade de apresentar suas interpretações sobre os fatos e sustentar seus pedidos.

Depois dos debates e das demais etapas previstas no procedimento, os jurados responderão aos quesitos formulados pelo juiz, que anunciará o resultado e, conforme as decisões, proferirá a sentença.

Embora a investigação e a denúncia tenham apontado responsabilidades, cabe ao Tribunal do Júri decidir sobre a responsabilização criminal dos quatro acusados, assegurados o contraditório, a ampla defesa e a presunção de inocência.

O julgamento conta com transmissão oficial do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJRS) pelo YouTube, com disponibilização do sinal também pelo Facebook e pelo YouTube do Portal ClicSoledade, permitindo que a população acompanhe os trabalhos em tempo real.