O terceiro dia do Tribunal do Júri do caso Paula Perin Portes, realizado nesta quinta-feira (22), na Câmara de Vereadores de Soledade, foi marcado por momentos de tensão entre representantes do Ministério Público e advogados de defesa dos quatro acusados. Divergências sobre provas, depoimentos e procedimentos da investigação provocaram discussões que exigiram intervenções do juiz José Pedro Guimarães.
Os episódios ocorreram ao longo das sustentações da acusação e das defesas, em uma jornada que terminou próximo das 21h. Em diferentes oportunidades, o magistrado interrompeu os debates para organizar os pronunciamentos, esclarecer questões processuais e preservar a ordem no plenário.
DISCUSSÃO DURANTE A MANIFESTAÇÃO DO MINISTÉRIO PÚBLICO
Um dos primeiros momentos de tensão aconteceu pela manhã, durante a manifestação do promotor de Justiça Marcos Paulo Frezza.
Ao contestar as declarações dos acusados, o promotor dirigiu comentários a Micael Willian Rossi Ortiz e interpretou o olhar do réu como uma possível atitude de enfrentamento. A situação provocou a reação de representantes da defesa, que questionaram essa interpretação e defenderam o direito dos acusados de acompanhar o julgamento.
A discussão se intensificou após uma troca de palavras entre Frezza e o advogado José Paulo Schneider, levando o juiz a interromper as manifestações.
Guimarães esclareceu que os réus não estavam impedidos de olhar para os participantes do julgamento, mas deveriam evitar atitudes que pudessem ser interpretadas como provocações. Também orientou os profissionais a não direcionarem ataques pessoais uns aos outros.
Após a intervenção, o promotor retomou sua manifestação e deu continuidade à apresentação dos argumentos da acusação.

DEPOIMENTO DE TESTEMUNHA PROVOCA NOVA DIVERGÊNCIA
Outro episódio ocorreu no final da tarde, durante a sustentação da defesa de João Albino Abegg dos Santos, conduzida pelos advogados Felipe Borges de Oliveira e José Paulo Schneider.
Ao apresentar sua interpretação das provas, Schneider questionou o conteúdo de declarações prestadas por uma testemunha e argumentou que elas não demonstrariam participação efetiva de João Albino no homicídio.
O promotor Eugenio Paes Amorim contestou a afirmação, iniciando uma discussão sobre o que havia sido relatado durante o depoimento.
A divergência ganhou intensidade quando os profissionais passaram a questionar a interpretação apresentada pela outra parte. Houve elevação do tom de voz e manifestações simultâneas, exigindo uma nova intervenção do magistrado.
Para esclarecer a controvérsia, Guimarães determinou que fosse localizado o trecho da gravação do depoimento, permitindo a conferência das declarações.
O juiz orientou os participantes a resolverem a divergência com base no material registrado. “Vamos resolver com a reprodução do depoimento, pronto? Aí vamos esclarecer essa dúvida. Acalmem-se”, afirmou.
A discussão também envolveu questionamentos sobre a maneira como os profissionais se dirigiam uns aos outros, especialmente durante os apartes. O magistrado voltou a pedir serenidade para que os trabalhos prosseguissem.

INVESTIGAÇÃO POLICIAL TAMBÉM FOI ALVO DE QUESTIONAMENTOS
Os procedimentos adotados durante a investigação estiveram entre os principais pontos de discordância ao longo da tarde e da noite.
Advogados de defesa questionaram a confiabilidade de determinadas declarações, a interpretação de imagens de segurança e aspectos relacionados à atuação de integrantes da Polícia Civil.
Durante as sustentações, foram apresentados documentos e mensagens que, segundo os defensores, levantariam dúvidas sobre procedimentos adotados na apuração do caso.
Os representantes do Ministério Público contestaram essas interpretações, defenderam o trabalho policial e sustentaram que as provas reunidas são suficientes para fundamentar o pedido de condenação.
As discussões também envolveram o alcance da responsabilidade criminal atribuída aos réus, especialmente em relação àqueles que, segundo as defesas, não teriam praticado diretamente os atos que provocaram a morte de Paula.

JUIZ REFORÇOU A NECESSIDADE DE RESPEITO EM PLENÁRIO
Ao longo dos debates, José Pedro Guimarães precisou administrar divergências relacionadas ao conteúdo das manifestações e à conduta dos profissionais.
Em uma das situações, após nova troca de palavras entre representantes da acusação e das defesas, o magistrado interrompeu a discussão para restabelecer a ordem.
O juiz solicitou que os profissionais retomassem a postura adequada aos trabalhos do Tribunal do Júri. “Vamos voltar à urbanidade, ao debate! Calma”, afirmou.
Mesmo com os episódios de tensão, as manifestações foram concluídas nesta quinta-feira, com a apresentação dos argumentos do Ministério Público, da assistência à acusação e das quatro equipes de defesa.
O julgamento será retomado nesta sexta-feira (23), às 10h, com a réplica do Ministério Público e, após o almoço, a tréplica das defesas. A expectativa é de que o veredito dos sete jurados seja conhecido durante a tarde.

















